A favela em chamas


Muitos anos depois daqueles meus tempos de menino pequeno lá em Heliópolis, de volta a São Paulo, casado e com filhos, descobri que os campos de futebol de várzea que eu conheci na infância não existiam mais.

Fiquei desolado.

Pior ainda foi que soube do fim do futebol de várzea dos tempos da minha infância por causa de uma tragédia.

Ao vivo, pela televisão, dei de cara com um incêndio.

Era cedinho, o dia mal tinha começado e aquele fogo na minha cara.

Fogo e fumaça.

Gente correndo pra todo lado.

Bombeiros tentavam conter as chamas e policiais militares faziam de tudo pra conter os moradores do local.

Do alto de um prédio de cinco ou seis andares, abandonado, invadido, homens, mulheres e crianças pediam socorro.

Helicópteros da Polícia Militar e das TVs sobrevoavam a área.

Mais tarde os repórteres informaram que tudo começou porque uma mulher havia colocado fogo no barraco em que morava com o marido e cinco filhos.

O motivo?

O de sempre: protesto contra uma suposta traição do marido, com quem ela nem era casada.

Nem trabalhei naquela manhã.

Tomei café de olhos fixados na TV.

Queria ter certeza de que era ali, onde o fogo destruía centenas de barracos de madeira, que eu passara bons e inesquecíveis momentos da minha infância.

Era, sem dúvida.

Anos depois, em 1990, outra notícia ruim me levou de volta a Heliópolis.

Eu passava férias com a família em Itu quando minha irmã Clélia, a caçula, ligou para dizer: “O tio Walter morreu”.

Larguei tudo e fui, com Sueli, velar o mais querido dos meus tios, irmão da minha mãe.

E onde ele havia morrido?

E onde ele estava sendo velado?

Em Heliópolis.

No Hospital Municipal de Heliópolis.

Como foi triste voltar a Heliópolis e dar de cara com o tio Walter num caixão de defunto.

Cláudio Amaral

24/11/2006 09:03:15 e 19/1/2012 07:38:00

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