O futebol no terrão



Quando eu era menino pequeno, lá em Adamantina, gostava de jogar bola no terrão.

O terrão ficava bem em frente da minha casa, na Alameda Armando de Salles Oliveira, 206, quase esquina com a Rua General Isidoro.

Na rua, mesmo.

É que a rua da minha casa era de terra.

Não tinha asfalto, nem paralelepípedo, nem cascalho.

Era terra pura.

Não tinha guia, nem sarjeta, nem calçada.

Todo mundo tinha que andar na terra.

Carros e gente.

Charretes e carroças também.

De vez em quando, mas muito de vez em quando, a prefeitura mandava passar um caminhão pipa para acalmar o terrão, abaixar a poeira.

Sim, porque a poeira subia a cada veículo que passava.

A poeira subia e ia cair exatamente na roupa branca que a mulherada havia acabado de lavar e colocado no varal.

No varal ou na grama, porque naquele tempo, lá pelos ido de 1958, ano de Copa do Mundo, ainda se usava quarar a roupa na grama.

Eu estudava pela manhã, no 1º Grupo Escolar de Adamantina.

Chegava da escola, tirava o uniforme, almoçava correndo e ia levar a marmita do meu pai.

E lá mesmo, no trabalho do meu pai, na Rua Joaquim Nabuco, próximo à esquina com a Avenida Rio Branco, ficava até anoitecer.

Ajudava ele a receber os fregueses no balcão, a lavar, passar.

Ficava torcendo para o trabalho acabar.

E quando meu pai me liberava para ir pra casa, ia num pé só.

Em casa, comia de novo, e como comia, e ia chamar meus amigos pra jogar bola no terrão.

Isto quando eles já não estavam na porta da minha casa, gritando por mim.

Como era bom jogar bola no terrão.

A gente suava até não querer mais.

Ficava todo sujo.

De terra, claro.

Não havia gripe que sobrevivesse a tanto suador.

Remédio pra gripe nem pensar.

Não precisava mesmo.

Depois do terrão, 11 da noite, era tomar banho e dormir.

E tinha que dormir bem, porque no dia seguinte tinha escola, trabalho e... bola
no terrão, de novo.

Bons tempos aqueles do futebol no terrão.

Cláudio Amaral

11/11/2006 16:36:16 e 2/1/2012 07:05:56

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