O trabalho, aos 6 anos
Comecei a trabalhar aos seis anos de idade, em 1955, no bairro do Sacomã, em São Paulo.
Foi numa sapataria que ficava na mesma rua da minha casa, uma travessa da Avenida Alencar Araripe.
Na rua e na casa em que eu vi o Brasil ser campeão mundial de futebol pela primeira vez.
Foi na Suécia, com Gilmar dos Santos Neves no gol e Pelé no ataque.
Eu ia à escola, no Moinho Velho, pela manhã.
Voltava, almoçava e corria para a sapataria do ‘seu’ Nenê, a 100 metros de casa.
Eu gostava de trabalhar lá.
Gostava porque o patrão me ensinou tudo.
Até fazer solado a ponto ele me ensinou.
E olha que solado a ponto era coisa de oficial, como ele chamava os sapateiros experientes, com 30, 40 anos de idade.
Eu?
Eu tinha seis anos.
Gostava, também, porque aos sábados, o dia de maior movimento na sapataria, todo freguês me dava gorjeta.
No fim do expediente, lá pelas 8 horas da noite, o patrão me pagava com uma nota grande, vermelha, de vintão, e eu ia pra casa, saltitando, alegre, muito feliz.
Em casa, abria o portão, gritava “mamãe” e dava a ela todo o dinheiro do dia: a nota de vintão e as gorjetas.
Era minha contribuição para o sustento da família, que tinha minha mãe, meu pai, minhas irmãs Cleide, a mais velha, e Clélia, a caçula, e meu irmão Clówis.
Um dia – um sábado, para ser exato – o patrão me chamou e disse que eu não precisava voltar na segunda-feira.
Diante da minha cara de choro, ele explicou, com a maior sinceridade: “Você sabe que meu irmão chegou do interior com uma mão na frente, outra atrás. E ele tem um filho pequeno, da sua idade”.
Não precisou dizer mais nada.
O meu lugar ficaria com o garoto, sobrinho do patrão.
Peguei meu dinheiro, uma nota grande e vermelha de vintão, juntei as gorjetas e fui pra casa e, tal qual um dia ouviria de Ambrósio, no futebol de rua, fui chorar no quentinho da cama.
Como foi triste ver o fim da minha carreira de sapateiro mirim.
Cláudio Amaral
11/11/2006 18:59:28 e 18/1/2012 10:28:12
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