A volta do futebol de rua
Com o fim do campinho de futebol, a única saída foi voltar ao futebol de rua.
A mesma rua, o mesmo espaço em que a gente jogava quando tudo era um terrão só.
A diferença era que nos tempos do terrão os meninos se machucavam menos.
Sim, porque, tal qual na música cantada e imortalizada por Noite Ilustrada, era cair, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.
No asfalto, não.
No asfalto colocado sobre o terrão a coisa era outra.
Quando um de nóis caia, não tinha mais poeira.
Tinha, isto sim, perna ralada. Ou braço ou joelho ou cotovelo ou cara.
E mais: vez por outra, tinha sangue, também.
Ninguém, entretanto, se quebrou no futebol de rua.
Nem nos tempos do terrão, nem nos tempos do asfalto.
Um ou outro mais mole caia, saia chorando e ia pra casa.
“Aqui, não. Vai chorar na cama, porque lá é quentinho”, disse uma vez o Ambrósio, o ‘Fio’, a um fraquinho.
E disse uma vez só.
Não houve entre nóis quem mais quisesse ouvir aquilo do grandalhão do Ambrósio, irmão do Noel e filho do ‘seu’ Juquinha, o maior fazendeiro da rua, com dona Mariquinha, um amor de mulher.
Por aquela época a minha situação já era diferente.
Eu havia concluído o Primário no 1º Grupo Escolar e fazia o Secundário no Instituto Educacional.
Um ia da primeira à quarta série.
O outro, da quinta à oitava.
O que isso tinha de diferente?
Tinha que os meninos e as meninas do Secundário podiam estudar à noite.
Bom pro meu pai, porque eu passei a trabalhar o dia todo com ele.
A rotina, porém, era praticamente a mesma: eu levantava, tomava um copo de café com leite e açúcar, muito açúcar, engolia um pão amanhecido com manteiga, muita manteiga, e ia para o trabalho.
Na hora do almoço, eu corria do trabalho pra casa, pegava as marmitas que minha mãe já deixava prontas e voava de volta.
No trabalho, cada um sentava num canto e destruía a comidinha da dona Wanda.
Era, invariavelmente, arroz com feijão e ovo.
Vez ou outra, mamãe fazia macarrão com carne moída.
Salada de alface e tomate, que eu gostava tanto, só no domingo.
Frango?
Frango, também, só no domingo.
Mas, futebol na rua, não.
Futebol na rua tinha toda noite.
Bons tempos aqueles do futebol na rua, ainda que a rua fosse de asfalto.
Cláudio Amaral
11/11/2006 18:28:54 e 5/1/2012 01:37:57
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