O futebol e a raspadinha
Foi exatamente na época da Copa do Mundo de 1958 que eu comecei a tomar gosto pelo futebol profissional.
O futebol amador, as peladas de rua, eu curtia desde muito pequeno.
Meu pai dizia que eu vibrava com o esporte trazido ao Brasil por Charles Miller desde 1954, ano em que o Corinthians foi “Campeão dos Campeões”.
Mas, sinceramente, eu não me lembro de nada referente a aquele ano, quando, imagino, comecei a torcer pelo Timão.
Eu e meus amigos íamos todo domingo aos campos da várzea, em Heliópolis, logo depois da Estrada das Lágrimas.
Muitos meninos da minha idade tinham pais e tios que jogavam por times das vizinhanças.
Cada time se reunia na casa de um deles e eu achava estranho cada jogador ter de pagar uma taxa para pegar a camisa.
Um dia alguém me explicou que o dinheiro era para a mulher que lavava o uniforme.
Fiquei na dúvida.
Era muito dinheiro.
A lavadeira ficaria rica com tudo aquilo.
Hoje, penso que quem ficava rico às custas dos jogadores eram os presidentes dos times.
Tal qual ficaram ricos muitos dirigentes – presidentes, inclusive – de times profissionais do futebol brasileiro.
Após os jogos dos adultos, meus amigos e eu saímos correndo atrás de uma bola qualquer pelos campos de Heliópolis.
Além de jogar bola, eu me divertia ajudando ‘seu’ Thomé.
Ele vendia raspadinha na Alencar Araripe, a rua mais movimentada do Sacomã.
Raspadinha, para quem não sabe, tem esse nome porque é feita com a raspa de gelo em barra.
‘Seu’ Thomé raspava o gelo que eu ia buscar no depósito mais próximo, colocava num copo plástico e jogava groselha por cima.
Ou groselha ou uma essência parecida com gosto de menta, por exemplo.
“Ao gosto do freguês”, dizia ‘seu’ Thomé.
Eu ia buscar as barras de gelo pra ele, uma a uma, porque gostava de ajudar.
Quando ele precisava dar uma saidinha, sei lá pra quê, eu ficava no comando do carrinho.
Ele sempre voltava logo, mas era tempo suficiente pra eu me sentir o menino mais orgulhoso do bairro.
Como foram bons aqueles tempos de futebol de várzea em Heliópolis.
Como era gostosa a raspadinha do ‘seu’ Thomé.
Cláudio Amaral
24/11/2006 08:34:59 e 12/1/2012 09:05:31
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