A TV do vizinho


Na minha infância não tinha TV em casa.

E, claro, eu sentia falta.

Afinal, havia TV em casas de alguns poucos amigos e conhecidos.

Nem por isso eu me lamentava.

Sentia falta, mas não ficava a resmungar pelos cantos.

Eu sabia que meu pai lutava com dificuldades para dar o mínimo indispensável pra família.

Eram ele, minha mãe e quatro filhos: Cleide, eu, Clówis e Clélia, pela ordem de nascimento.

A situação da família era tão difícil que meu pai ia, pessoalmente, à feira.

Ele ia; minha mãe, não.

Ele dizia que minha mãe não sabia escolher os melhores legumes, frutas e verduras.

“Os melhores ou mais baratos?”, retrucava minha mãe.

Os mais baratos, tenho certeza.

Mas não era por isso que não havia TV em casa.

Era porque a família não tinha dinheiro para comprar um aparelho.

E também porque naquele tempo, meados dos anos 1950, não existiam tantas facilidades e crediário como hoje, desde que surgiram as Casas Bahia.

Pois bem: e como fazer para ver TV?

Os jogos de futebol eu via nos bares das redondezas.

Não eram lugares ideais para um menino de seis anos, porque os marmanjos viam o futebol na TV rodeados de cachaça e cerveja, fumavam, falavam palavrões, discutiam e brigavam.

Mas, eu queria ver os jogos do Corinthians e não tinha alternativa.

E os filmes?

E os programas de auditório?

Estes não passavam nas TVs dos bares.

Só os jogos de futebol, que eram transmitidos pela TV Record.

Certa vez, um freguês da sapataria em que eu trabalhava comentou que a TV Record mostraria um filme épico.

Algo como Sansão e Dalila.

Eu arregalei os olhos.

“Quando?”, perguntei sem pensar.

“Hoje à noite”, respondeu o freguês.

Fiquei calado e de boca aberta.

O cidadão percebeu meu interesse e disse, certamente também sem pensar: “Aparece lá em casa e a gente vê o filme. Começa às 8”.

Não tive dúvida: depois do trabalho, fui correndo pra casa, tomei banho, vesti minha melhor roupa, engoli a comida que tinha e fui pra casa dele, bem em frente da sapataria.

Toquei a campainha, a dona da casa me atendeu e... Decepção: ele não estava.

Murchei.

Sem graça, sem jeito e sem mais nada, eu disse: “É que o seu filho me convidou para ver o filme na TV. Eu não tenho TV em casa”.

A mulher compreendeu o drama daquele pequeno ser que estava à porta da casa dela e não teve dúvida: “Entre. Você vê o filme comigo e com meu marido”.

Pulei de alegria.

Entrei sem pedir licença (ou pedi?).

Como foi bom ver o filme da Record na TV do vizinho.

Cláudio Amaral

24/11/2006 10:06:07 e 23/1/2012 08:15:29

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Eu voltei à Rádio Brasil de Adamantina

A A.A. Comunicações do Amigo Meninão

De Marília para Campinas, pelo Estadão