O futebol no campinho
Pois não é que um dia a Prefeitura de Adamantina resolveu acabar com o terrão?
A mulherada gostou.
Afinal, não haveria mais poeira para sujar a roupa que nossas mães e lavadeiras lavavam.
Lavadeiras, sim, porque as famílias mais abastadas tinham lavadeiras. E muito mais.
A minha, não.
A minha família era pobre.
Não tão pobre, porque meu pai trabalhava por conta própria e ainda tinha aluguéis de duas ou três casas modestas.
Mas, para ter lavadeira não dava.
Então.
A prefeitura aplainou a rua da minha casa, fez guia, sarjeta, calçada, jogou cascalho, pedra britada e depois piche.
Ficamos semanas sem futebol na rua.
Até o dia em que o Negrinho teve uma idéia: “Vamos fazer um campinho”.
E não é que o Amigo tição tinha razão.
Sim, porque em frente da minha casa havia um terreno baldio, grande, onde eram armados os circos que chegavam na cidade.
E lá fomos nóis.
Nóis, que eu digo, éramos eu, meu irmão Clówis (falecido em Uberaba/MG no dia 17/1/2008 em acidente de carro), Neguinho, Noel, Pedrinho, Serginho, Cuca, Troção... e Ambrósio, o ‘Fio’, irmão mais velho do Noel, que tinha quase o dobro da nossa idade.
Sob as ordens do Neguinho, tiramos do terreno os cacos de vidro, as garrafas, as solas e saltos de sapato, as latas e tudo mais que haviam jogado no terreno do circo.
Tiramos também o mato, que não era pouco.
Tapamos os buracos, mas só os pequenos, porque os grandes eram grandes demais e ficavam nas beiradas, ou seja, não atrapalhavam o nosso jogo.
“E as traves?”, gritou Troção quando viu que o campinho estava quase pronto para o futebol.
Lá foi Neguinho, sempre ele, em busca de caibros nas construções das redondezas.
Neguinho, Noel e Cuca.
Foram e voltaram com madeira suficiente para marcar os gols.
Aquilo não eram traves, mas dava muito bem para ver quando era gol.
Com o campinho pronto, outros interessados foram chegando.
Todos queriam jogar.
Até um rapaz de nome Jaime, filho do quitandeiro do pedaço e de uma beata, professora aposentada.
Era um moço magrelo, branquelo, alto demais para a nossa idade.
Feio, também.
E desajeitado.
Tão desajeitado que todos comentavam que ele era viadinho.
Não era não.
Ele era delicado, pois a mãe o criara assim e os pais o educaram para ser padre.
Se foi, não sei.
Mas futebol no campinho ele jogou.
Mal e porcamente, é verdade.
Bom de bola, mesmo, era meu irmão Clówis.
Ele tinha uma habilidade incrível com a canhotinha.
Fazia gol atrás de gol.
Eu tinha o maior orgulho do meu irmão no futebol no campinho.
Bons tempos aqueles do futebol no campinho.
Cláudio Amaral
11/11/2006 17:49:20 e 3/1/2012 09:07:19
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