O sovina do meu pai
Minha irmã Clélia não gosta que eu fale assim do nosso pai.
Mas, a verdade, verdadeiramente, é que ele era tão mão fechada, tão pão duro, mas tão pão duro, que, respeitosamente, eu não tenho dúvida em afirmar que meu para era sovina.
Posso contar pelo menos dois casos marcantes – para mim, pelo menos – que provam que meu pai levava “ratoeiras nos bolsos”.
Um é relacionado ao fato de só ele – minha mãe, jamais – ir à feira comprar frutas, legumes e verduras.
Pois bem: ele ia sempre no finzinho da feira.
Na xepa, como se diz.
Exatamente na hora em que os feirantes tentam vender tudo o que sobrou e assim não ter que voltar pra casa com mercadoria.
Era nessa hora que meu pai comprava bananas, por exemplo.
E ele sempre chegava em casa com bananas amadurecidas, porque era o que restava no fim da feira.
Era o que custava mais barato.
Às vezes, um terço do preço cobrado ao longo da maioria do período.
E assim era também com os outros produtos.
O outro caso é mais marcante porque aconteceu comigo e me deixou numa situação muito desconfortável.
A gente morava em Adamantina pela segunda vez.
Eu trabalhava com meu pai na Lavanderia Adamantina.
Lavanderia, tinturaria e chapelaria.
Além de lavar e passar roupas, ele tingia, ou seja, fazia a roupa mudar de cor.
Fazia mais: reformava chapéus.
Não raro, o chapéu chegava ao nosso balcão todo deformado e engordurado.
Sim, porque o cidadão usava chapéu para se proteger do sol e o calor fazia com ele transpirasse e o suor penetrava no chapéu e o deixava todo engordurado e sujo.
Para reformar, meu pai, além de lavar o chapéu todinho, trocava a carneira, que é fixada por dentro, e a fita, por fora.
Precisa, portanto de carneira e fita novas, o que não era possível comprar em Adamantina, só em Lucélia.
E quem ia até Lucélia, a 7 quilômetros de distancia?
Meu pai, claro.
Certa vez, entretanto, ele não pode ir.
Uma vez só.
Mandou que eu fosse e me deu o dinheiro contato, como sempre, para as passagens de ônibus, ida e volta, mais a quantidade de carneiras e fitas que ele precisava.
Pois quando o lojista me deu a conta eu quase cai de costas: era exatamente o valor que eu tinha no bolso, ou seja, eu não teria dinheiro para a passagem de volta.
Acredite se quiser: eu teria que voltar a pé, andando 7 quilômetros no areião, de Lucélia a Adamantina.
Só voltei de ônibus porque o lojista ficou com dó de mim.
Meu Deus, como meu querido e saudoso pai era sovina.
Cláudio Amaral
24/11/2006 16:37:37 e 24/1/2012 10:35:45
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