Honestidade, também

Além do gosto pelo trabalho, meu pai me deixou outro exemplo importante: a honestidade.

Meu pai era tão honesto, mas tão honesto, que sempre se recusou a ficar com o que não era dele.

Devolvia centavo por centavo ao caixa de banco que desse a ele dinheiro a mais, fosse no troco de uma conta paga ou numa retirada.

A demonstração de honestidade de meu pai que mais me marcou aconteceu em 1969, depois que eu já não estava mais em casa, em Adamantina, mas em Marília, trabalhando no Jornal do Comércio.

Um dia, passando o fim de semana com a família, em Adamantina, meu pai me chamou num canto e me contou que estava passando roupa nova para uma fábrica de calças da cidade.

A cada dois dias o homem chamava meu pai na fábrica e dizia: “Lazinho, leve estas 100 calças para passar e me traga de volta no menor tempo possível”.

Meu pai colocava todas as calças numa Kombi velha que ele tinha e levava para a tinturaria, na Rua Joaquim Nabuco.

E lá meu pai passava uma por uma, pessoalmente.

Passava e separava em lotes de dez calças.

Ao final do trabalho, ele contava os lotes.

“E não é, filho, que sempre tem mais de 100”, ele me contou.

Às vezes, segundo meu pai, ele passava até 120 calças por remessa.

Espantado, perguntei o que meu fazia com as calças a mais.

Ele não pensou duas vezes para me dizer: “Devolvo todas”.

E acrescentou: “As calças e a conta”.

As calças eram boas, seriam muito úteis para meu pai, meu irmão e para mim, claro.

De graça, então, mais úteis ainda.

Mais meu pai seria incapaz de ficar com uma que fosse.

Ele não faria com outro – o dono da fábrica de calças de Adamantina – o que não gostaria que fosse feito com ele.

Esse caso está vivo na minha memória até hoje.

Foi este caso, precisamente, que me levou a tomar inúmeras decisões importantes ao longo da vida.

É por essas e outras que eu sempre tive o maior orgulho do meu pai.

Cláudio Amaral

28/11/2006 23:40:10 e 27/1/2012 07:44:59

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