O caminhão e a rádio


Vivi outras histórias marcantes e inesquecíveis em minha cidade natal (além das postadas anteriormente).

Na rua do terrão, na Rádio Brasil, no 1º Grupo Escolar, no balcão do trabalho do meu pai, no terreno do circo, nos dois cinemas, na maior loja de discos da época, na prefeitura, na Câmara de vereadores, na estação ferroviária, no Ateneu Bento da Silva, no Instituto Educacional, no Ginásio Estadual Helen Keller, no campo de aviação...

Da rua do terrão eu me lembro bem de uma história envolvendo um caminhão.

Ele ficou sem freios e desceu do centro da cidade em direção ao bairro.

O motorista, o valente Tonhão, bem que poderia ter pulado e deixado o bruto ir só, ladeira abaixo, pela Alameda Armando de Salles Oliveira.

Mas, sabendo do risco de atropelamento de algum inocente desavisado ou da invasão de uma casa humilde, Tonhão se manteve firme ao volante.

Colocou a cabeça pra fora da boléia e gritou a plenos pulmões para que abrissem ala pra ele e o caminhão passarem.

Foi ladeira abaixo e morro acima, após cruzar a Rua General Isidoro, até conseguir conter o veículo.

Assustado mas consciente, não tive dúvida: peguei o telefone do vizinho, o professor Luizinho, e liguei para a Rádio Brasil AM 1510 kHz.

Pedi à telefonista para me chamar o locutor de plantão e disse ao Carlos Neves o que tinha acontecido.

Pedi que ele fizesse o devido relato aos ouvintes, mas, para minha surpresa, Charles News, como os colegas o chamavam, se recusou.

E explicou a razão: “Você vai dizer tudo isso ao vivo em um instante”.

Foi o que eu fiz, com a maior alegria, porque meu maior sonho, na época, era ser locutor da Brasil.

Sem querer, tornei-me o que muitos anos depois a Rádio Eldorado AM 700 kHz, em São Paulo, viria a batizar de “ouvinte repórter”.

Amigo do diretor da única emissora local, Fauser Antônio dos Santos, o ‘Turco’, meu pai pediu e ele me deu uma chance.

Fiz um teste e passei, mas fiquei apenas três semanas no ar.

No ar e na rua, porque, além de locução, eu era obrigado a fazer cobrança, também. Em Adamantina e até numa cidade vizinha, Mariápolis.

Perdi a oportunidade de fazer carreira na Rádio Brasil porque na tarde de um domingo, na falta de programação, a turma de plantão, eu inclusive, resolveu transmitir uma seleção de música popular brasileira.

Choveu telefonemas de elogios a tarde toda.

Muitos ouvintes sugeriram músicas e o jovem e eclético locutor Walter Paulo Sabela, que viria a ser promotor público na Capital, corria do estúdio para a discoteca e para o estúdio com uma agilidade incrível.

O diretor, entretanto, não gostou da farra e agiu.

Na segunda-feira cedo, Fauser Santos nos chamou na sala dele, deu um esculacho em todos, uma advertência por escrito a cada um dos funcionários envolvidos no caso e demitiu o único que ainda não tinha registro: eu.

Como foi triste descer os 22 degraus da escadaria do prédio da Rádio Brasil após aquela frustrada tentativa de virar locutor.

Cláudio Amaral

11/11/2006 22:08:17 e 31/1/2012 14:56:03

Comentários

  1. Obrigada, Cláudio, pela lembrança do meu pai, Carlos Neves!! Abraço, sucesso !!
    Rosana Martha Rufino

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    Respostas
    1. Obrigado, eu, Rosana, pelo seu comentário. Por favor, me dê notícia dele. Diga-me, também: como você nos encontrou (ao seu pai e ao meu blogue)?
      Saudações.
      Cláudio Amaral

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